Chá preto

Quais são os seus devaneios?
No que pensa enquanto toma esse chá preto?
O que se passa sua conturbada mente?
Semblante limpo, mas pensativo
Rosto doce, mas palavras cruéis 
Vincos na testa
Sobrancelhas unidas, sobrancelhas separadas 
Sobrancelhas unidas, sobrancelhas separadas 
Não me atrevo a chamar sua atenção, não me atrevo a atrapalhar esse ritual
Esse que você chama de "lavagem cerebral"
Não me atrevo, não me atrevo e não me atrevo
Ou quem sabe seja uma lavagem espiritual
Por que você não aparenta mais estar aqui
Da paz, o tormento
Caminha de um lado para o outro
De um lado para o outro
De um lado para o outro
Eu te sigo pela casa, mais perdido que você mesma
Não me atrevo a te interromper 
Não sou capaz, é hipnotizante
Senta, levanta, anda
Anda, levanta, senta
Eu quero gritar com você
Pegar você pelos ombros, te sacudir e dizer, "Você está louca mulher?"
Mas não me atrevo, sou um covarde
Ela chora, ela ri, ela grita
ELA ME ENLOUQUECE, e  eu não sei o que fazer
O que tinha naquele maldito chá preto?
Ela é selvagem, mas é frágil
É indecisa, nem ao menos saber o que quer 
Ela entra em transe, algo a suga daqui
Ela não parece me notar
Então, sentada na poltrona pego-a me fitando
Me percebendo...
Ela voltou
Me olha e ri.
Ela é maluca, e eu ainda mais
Por ela
Eu quero mata-la, deixa-la e ir embora
Por ser assim, por esquecer de mim
Como ela consegue?
Mas eu não consigo, olha o sorriso dela
Ela inclina o cabeça para  o lado, me olha e diz:
- Encontrei!

Colorful


Sob a tela eu enxergo o vazio
Apenas uma tela em branco
Pincel nas mãos, tintas há postos
O nada me encara, eu encaro o nada.
Mas não é somente um simples nada
É um nada vivo, a tela se movimenta sob a superfície
Eu vejo.
Engana os que apenas olham, mas não os vêem.
E então eu sou a tela, eu sou o nada.
Ma como pode alguém ser UM NADA?
Sou mais, não apenas isso
E então, eu sinto...
O pintor voltou-se a sua obra
Somente um pingo
É tinta, é vida
E as pinceladas são longas e exatas
Riscos uniformes
Traços sem rumo, mas precisos, decididos.
E do cinza surge a cor
Do cinza surge a luz, forma
Não somente rabiscos sem nexo
É mais
É uma explosão
Agora há sentimento, bons e ruins
Incontrolável
Calmo
Selvagem
É dor
É amor
Sabor
Calor...

E agora o nada, é tudo!
A obra está feita, mas não terminada
Essa não se acaba como as outras
Essa é infinita e da flores
Continuação
O pintor admira a sua obra
Mãos calejadas do atrito do pincel
Mas seu semblante é tranquilo, calmo
A obra não é perfeita
Não é pra ser
É pra ser inesquecível
E é...
O pintor ama a sua obra
De certo modo ela é perfeita.

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