Finch...
"Estendo os braços como se estivesse dando um sermão a toda esta cidadezinha chatíssima, como se
fosse minha congregação.
fosse minha congregação.
— Senhoras e senhores — grito —, gostaria de apresentar-lhes a minha morte!
Talvez o esperado fosse dizer “vida”, já que acabei de despertar, mas é exatamente quando
estou desperto que penso em morrer.
Grito como um velho pregador, sacudindo a cabeça e enrolando o final das palavras, e
quase perco o equilíbrio. Me seguro no parapeito atrás de mim, feliz porque ninguém parece
notar; verdade seja dita, é difícil parecer destemido quando se está agarrado a um parapeito
como um frangote.
estou desperto que penso em morrer.
Grito como um velho pregador, sacudindo a cabeça e enrolando o final das palavras, e
quase perco o equilíbrio. Me seguro no parapeito atrás de mim, feliz porque ninguém parece
notar; verdade seja dita, é difícil parecer destemido quando se está agarrado a um parapeito
como um frangote.
— Eu, Theodore Finch, por não estar em pleno gozo das minhas faculdades mentais, por meio desta lego meus bens a Charlie Donahue, Brenda Shank-Kravitz e minhas irmãs. Todas as outras pessoas podem se f… —
Lá em casa, desde cedo minha mãe nos ensinou a usar esse palavrão (quando for de fato necessário), mas sempre só a primeira letra. Infelizmente, o
costume pegou.
Apesar de o sinal já ter tocado, alguns alunos permanecem no pátio. Estamos na primeira
semana do segundo semestre do último ano e a maioria age como se já estivesse se formando.
Um garoto olha na minha direção, como se tivesse me ouvido, mas os outros não, porque não me viram ou porque sabem que estou aqui e Ah, é só o Theodore Aberração.
Então ele olha para o outro lado e aponta para o céu. De início, acho que está apontando
para mim, mas então a vejo. A garota está a alguns metros de distância, do outro lado da torre, também na beirada, cabelo loiro escuro balançando ao vento, a barra da saia inflando como um paraquedas. Apesar de ser inverno em Indiana, ela está descalça, de meia-calça, segurando
as botas e olhando fixo para os pés ou para o chão… não sei dizer. Parece paralisada.
Com minha voz normal, não a de pregador, digo, o mais calmamente possível:
Lá em casa, desde cedo minha mãe nos ensinou a usar esse palavrão (quando for de fato necessário), mas sempre só a primeira letra. Infelizmente, o
costume pegou.
Apesar de o sinal já ter tocado, alguns alunos permanecem no pátio. Estamos na primeira
semana do segundo semestre do último ano e a maioria age como se já estivesse se formando.
Um garoto olha na minha direção, como se tivesse me ouvido, mas os outros não, porque não me viram ou porque sabem que estou aqui e Ah, é só o Theodore Aberração.
Então ele olha para o outro lado e aponta para o céu. De início, acho que está apontando
para mim, mas então a vejo. A garota está a alguns metros de distância, do outro lado da torre, também na beirada, cabelo loiro escuro balançando ao vento, a barra da saia inflando como um paraquedas. Apesar de ser inverno em Indiana, ela está descalça, de meia-calça, segurando
as botas e olhando fixo para os pés ou para o chão… não sei dizer. Parece paralisada.
Com minha voz normal, não a de pregador, digo, o mais calmamente possível:
— Vai por mim, o pior que você pode fazer é olhar pra baixo.
Bem devagar, ela vira a cabeça na minha direção, e eu percebo que a conheço, que já a vi
pelos corredores. Não resisto e pergunto:
Bem devagar, ela vira a cabeça na minha direção, e eu percebo que a conheço, que já a vi
pelos corredores. Não resisto e pergunto:
— Vem sempre aqui? Porque esse lugar é como se fosse a minha casa, e não me lembro de ter visto você aqui.
Ela nem pisca, só olha pra mim por trás daqueles óculos grossos que quase cobrem o rosto inteiro. Tenta dar um passo para trás, mas seu pé bate no parapeito. Ela se desequilibra um
pouco e, antes que entre em pânico, eu digo:
Ela nem pisca, só olha pra mim por trás daqueles óculos grossos que quase cobrem o rosto inteiro. Tenta dar um passo para trás, mas seu pé bate no parapeito. Ela se desequilibra um
pouco e, antes que entre em pânico, eu digo:
— Não sei por que veio, mas pra mim a cidade fica mais bonita vista daqui, e as pessoas
parecem melhores… mesmo as piores parecem quase gentis. Tirando o Gabe Romero e a
Amanda Monk e toda aquela galera com quem você anda.
parecem melhores… mesmo as piores parecem quase gentis. Tirando o Gabe Romero e a
Amanda Monk e toda aquela galera com quem você anda.
O nome dela é Violet Alguma Coisa. Ela é superpopular — uma dessas garotas que a gente jamais imaginaria encontrar em um parapeito a seis andares do chão. Atrás dos óculos ridículos, ela é bonita, quase uma boneca de porcelana. Olhos grandes, rosto delicado em formato de coração, boca esboçando um sorriso perfeito. Ela é do tipo que sai com caras
como Ryan Cross, destaque do time de beisebol, e senta com Amanda Monk e outras meninas populares no almoço.
como Ryan Cross, destaque do time de beisebol, e senta com Amanda Monk e outras meninas populares no almoço.
— Mas não estamos aqui por causa da vista. Você é a Violet, não é?
Ela pisca uma vez, e eu encaro como “sim”.
— Theodore Finch. Acho que estávamos na mesma turma de matemática no ano passado.
Ela pisca de novo.
— Odeio matemática, mas não foi por isso que subi aqui. Sem ofensa, se for esse seu
motivo. Você deve ser melhor em exatas que eu, porque quase todo mundo é, mas tudo bem,
não tenho problemas com isso. Sabe, eu me destaco em coisas mais importantes… guitarra,
sexo e decepcionar meu pai constantemente, por exemplo. Aliás, parece que é verdade que
não serve pra nada na vida. A matemática, quero dizer.
motivo. Você deve ser melhor em exatas que eu, porque quase todo mundo é, mas tudo bem,
não tenho problemas com isso. Sabe, eu me destaco em coisas mais importantes… guitarra,
sexo e decepcionar meu pai constantemente, por exemplo. Aliás, parece que é verdade que
não serve pra nada na vida. A matemática, quero dizer.
Continuo falando, sem perceber que minhas forças estão se esvaindo. Primeiro, preciso
fazer xixi, então minhas palavras não são a única coisa querendo sair. (Nota mental: Antes de tentar se matar, lembrar de tirar água do joelho.) Segundo, está começando a chover e, a essa temperatura, a chuva provavelmente vira granizo antes de alcançar o chão.
fazer xixi, então minhas palavras não são a única coisa querendo sair. (Nota mental: Antes de tentar se matar, lembrar de tirar água do joelho.) Segundo, está começando a chover e, a essa temperatura, a chuva provavelmente vira granizo antes de alcançar o chão.
Está começando a chover — digo, como se ela não soubesse. — Acho que podemos considerar que a água vai lavar o sangue, então a sujeira vai ser menor. É a parte da sujeira que me intriga. Não sou vaidoso, mas sou humano; não sei quanto a você, mas não quero que, ao me ver no velório, as pessoas pensem que fui triturado por uma máquina de serragem.
Ela está tremendo de frio ou de nervoso, não sei dizer, então me aproximo devagar, torcendo
pra não cair antes de chegar lá, porque a última coisa que quero é me fazer de idiota na frente
dessa garota.
pra não cair antes de chegar lá, porque a última coisa que quero é me fazer de idiota na frente
dessa garota.
— Deixei claro que quero ser cremado, mas minha mãe não acredita nisso.
E meu pai faz tudo o que ela manda pra ela não ficar mais irritada do que normalmente é e, além do mais, Você é muito novo pra pensar nisso, você sabe que a vovó viveu até os
noventa e oito anos. Não precisamos falar disso agora, Theodore, não chateie sua mãe.
— Então meu caixão vai estar aberto, o que significa que, se eu pular, não vai ficar nada
bonito. Além do mais, eu meio que gosto do meu rosto assim, dois olhos, um nariz, uma boca,
todos os dentes… que, pra ser honesto, são uma das minhas melhores qualidades. — Sorrio
pra ela conferir. Tudo em seu devido lugar, pelo menos do lado de fora.
Como ela não diz nada, continuo me aproximando e conversando.
— Acima de tudo, tenho pena do agente funerário. Já deve ser um trabalho de merda, aí
imagina ter que lidar com um imbecil como eu?
noventa e oito anos. Não precisamos falar disso agora, Theodore, não chateie sua mãe.
— Então meu caixão vai estar aberto, o que significa que, se eu pular, não vai ficar nada
bonito. Além do mais, eu meio que gosto do meu rosto assim, dois olhos, um nariz, uma boca,
todos os dentes… que, pra ser honesto, são uma das minhas melhores qualidades. — Sorrio
pra ela conferir. Tudo em seu devido lugar, pelo menos do lado de fora.
Como ela não diz nada, continuo me aproximando e conversando.
— Acima de tudo, tenho pena do agente funerário. Já deve ser um trabalho de merda, aí
imagina ter que lidar com um imbecil como eu?
Lá de baixo, alguém grita:
— Violet? É a Violet lá em cima?
— Ai, meu Deus — ela diz, tão baixo que eu mal consigo ouvir. — Ai-meu-Deus-ai-meu-
Deus-ai-meu-Deus. — O vento sopra contra sua saia e seu cabelo e parece que ela vai voar
para longe.
Começa um burburinho lá embaixo, e eu grito:
— Ai, meu Deus — ela diz, tão baixo que eu mal consigo ouvir. — Ai-meu-Deus-ai-meu-
Deus-ai-meu-Deus. — O vento sopra contra sua saia e seu cabelo e parece que ela vai voar
para longe.
Começa um burburinho lá embaixo, e eu grito:
— Não tente me salvar! Você vai acabar se matando!
Depois digo bem baixinho, só pra ela:
— Acho que devemos fazer o seguinte… — Estou a mais ou menos um passo dela agora. —
Jogue as botas em direção ao sino e agarre o parapeito, agarre pra valer, e, assim que
conseguir, se apoie nele e passe o pé direito por cima. Entendeu?
—Tá bom. — Ela faz que sim com a cabeça e quase perde o equilíbrio.
— Acho que devemos fazer o seguinte… — Estou a mais ou menos um passo dela agora. —
Jogue as botas em direção ao sino e agarre o parapeito, agarre pra valer, e, assim que
conseguir, se apoie nele e passe o pé direito por cima. Entendeu?
—Tá bom. — Ela faz que sim com a cabeça e quase perde o equilíbrio.
— Não balance a cabeça.
— Tá bom.
— E não vá para o lado errado nem dê um passo à frente em vez de um passo atrás. Vou
contar e você vai no três. Tudo bem?
— Tudo bem. — Ela joga as botas em direção ao sino e elas caem fazendo tum tum no
concreto.
— Um. Dois. Três.
— Tá bom.
— E não vá para o lado errado nem dê um passo à frente em vez de um passo atrás. Vou
contar e você vai no três. Tudo bem?
— Tudo bem. — Ela joga as botas em direção ao sino e elas caem fazendo tum tum no
concreto.
— Um. Dois. Três.
Ela agarra a pedra e meio que se escora nela e então levanta a perna e a passa por cima até
sentar no parapeito. Olha para o chão, e eu percebo que está paralisada de novo, então digo:
sentar no parapeito. Olha para o chão, e eu percebo que está paralisada de novo, então digo:
— Ótimo. Muito bom. Só pare de olhar pra baixo.
Ela desvia o olhar pra mim devagar e tenta alcançar o chão da torre com o pé direito. Assim que alcança, digo:
— Agora passe a perna esquerda do jeito que conseguir. Não solte do parapeito. — Neste momento, ela está tremendo tanto que eu escuto os dentes batendo, mas vejo o pé esquedo se juntar ao direito, e ela está a salvo.
Agora só eu estou do lado de fora. Olho para baixo uma última vez, para além dos pés
tamanho quarenta e cinco que não param de crescer — hoje estou usando tênis com cadarço florescente —, para além das janelas abertas do quarto andar, do terceiro, do segundo, além de Amanda Monk, que está cacarejando na escadaria em frente ao prédio e balançando o cabelo loiro como se fosse um pônei, com os livros sobre a cabeça, tentando chamar a atenção e se proteger da chuva ao mesmo tempo.
Passando por tudo isso, olho para o chão, que está liso e úmido, e me imagino deitado lá. Eu poderia simplesmente dar um passo à frente. Em segundos, acabaria com tudo. Nunca mais “Theodore Aberração”. Nunca mais dor. Nunca mais nada.
Tento contornar a interrupção inesperada para salvar uma vida e voltar ao que estava
fazendo. Por um minuto, sinto uma paz conforme minha mente se aquieta, como se eu já
estivesse morto. Estou leve e livre. Nada e ninguém a temer, nem eu mesmo.
Então, uma voz atrás de mim diz:
Agora só eu estou do lado de fora. Olho para baixo uma última vez, para além dos pés
tamanho quarenta e cinco que não param de crescer — hoje estou usando tênis com cadarço florescente —, para além das janelas abertas do quarto andar, do terceiro, do segundo, além de Amanda Monk, que está cacarejando na escadaria em frente ao prédio e balançando o cabelo loiro como se fosse um pônei, com os livros sobre a cabeça, tentando chamar a atenção e se proteger da chuva ao mesmo tempo.
Passando por tudo isso, olho para o chão, que está liso e úmido, e me imagino deitado lá. Eu poderia simplesmente dar um passo à frente. Em segundos, acabaria com tudo. Nunca mais “Theodore Aberração”. Nunca mais dor. Nunca mais nada.
Tento contornar a interrupção inesperada para salvar uma vida e voltar ao que estava
fazendo. Por um minuto, sinto uma paz conforme minha mente se aquieta, como se eu já
estivesse morto. Estou leve e livre. Nada e ninguém a temer, nem eu mesmo.
Então, uma voz atrás de mim diz:
— Quero que você agarre o parapeito e, assim que conseguir, se apoie nele e passe o pé direito por cima.
Simples assim, sinto o momento passar, talvez já tenha passado, e agora parece uma ideia idiota, a não ser pelo fato de imaginar a cara da Amanda quando eu caísse perto dela. Esse pensamento me faz rir. Rio tanto que quase perco o equilíbrio, e isso me assusta — tipo, me assusta mesmo — então me apoio no parapeito e Violet me segura enquanto Amanda olha pra cima.
— Aloprado! — alguém grita.
O grupinho da Amanda ri. Ela faz uma concha com a mão ao lado da boca e olha pra cima.
O grupinho da Amanda ri. Ela faz uma concha com a mão ao lado da boca e olha pra cima.
— Você está bem, V?
Violet se inclina sobre o parapeito, ainda segurando minhas pernas.
— Estou.
A porta no topo das escadas da torre se abre e meu melhor amigo, Charlie Donahue,
aparece. Charlie é negro. Bem negro mesmo. E faz mais sexo do que qualquer outra pessoa
que eu conheço. Como se eu não estivesse em pé no parapeito a seis andares do chão, com os braços abertos e uma garota agarrada nos meus joelhos, ele diz:
aparece. Charlie é negro. Bem negro mesmo. E faz mais sexo do que qualquer outra pessoa
que eu conheço. Como se eu não estivesse em pé no parapeito a seis andares do chão, com os braços abertos e uma garota agarrada nos meus joelhos, ele diz:
— Eles estão servindo pizza hoje.
— Por que não acaba com isso de uma vez, aberração? — Gabe Romero, mais conhecido
como Roamer, mais conhecido como Babaca, grita lá de baixo.
como Roamer, mais conhecido como Babaca, grita lá de baixo.
Mais risadas.
Porque tenho um encontro com a sua mãe mais tarde, penso, mas não digo, porque,
sejamos honestos, é uma resposta ridícula, e também porque ele poderia subir e bater na minha cara e me jogar daqui, o que estraga a ideia de eu mesmo fazer isso.
Em vez disso, agradeço.
sejamos honestos, é uma resposta ridícula, e também porque ele poderia subir e bater na minha cara e me jogar daqui, o que estraga a ideia de eu mesmo fazer isso.
Em vez disso, agradeço.
— Obrigado por me salvar, Violet. Não sei o que faria se você não tivesse vindo. Acho que estaria morto.
O último rosto que vejo lá embaixo é o do meu orientador pedagógico, o sr. Embry."
Trechos e citações. Finch. Por lugares incríveis.

O começo de tudo...
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